sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Princesa Leal




Se a história é mesmo escrita pelos vencedores, o que a autora Philippa Gregory pretende com a sua saga Tudor é justamente o oposto: em cada volume, o protagonismo é dado a uma mulher “oculta” da corte inglesa, a uma esposa desprezada, a uma filha infeliz... E o que todas elas têm em comum? Henrique VIII, o primeiro rei da Inglaterra a se desligar da Igreja Católica, fundar o Anglicanismo e a ter várias esposas. 


Embora não seja comprometido com os fatos, A Princesa Leal é um romance histórico como poucos. A autora retrata a vida de Catarina de Aragão, desde seu começo como Infanta de Espanha até o crítico momento em que, já como esposa e rainha desprezada de Henrique VIII, enfrenta o tribunal eclesiástico que mudou todo o mundo a partir de então. 

Chamada de Princesa de Gales desde os três anos, Catarina afirma em um dado momento que tinha nascido para lutar por seu nome, sua fé e seu trono. E é justamente isso que acompanhamos, cada vez que ela se expressa: narrado em primeira pessoa, estamos junto com ela a cada passo, em cada estratégia politica, fofocas da corte e tentativas de estender seu poder e influência. Um trunfo executado de forma inteligente pela autora para nos agarrar à Catarina desde as primeiras páginas.

Se o começo pode parecer lento e detalhado demais, pois se concentra nas muitas cruzadas de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, pais de Catarina, para derrotar os mouros e a queda de Alhambra, o ritmo muda totalmente quando a jovem chega à Inglaterra. Somos envolvidos pelo relato de seu estranhamento aos costumes da nova corte – rude e ignorante em sua opinião, criada em meio ao conhecimento do Oriente – mas, especialmente, por seu casamento com Arthur, o Príncipe de Gales. 

Apaixonados, dedicados um ao outro e determinados a recriar Camelot juntos, Arthur e Catarina são cruelmente separados quando o príncipe morre de uma febre alta. A pedido deste em seu leito de morte, a princesa nega que seu casamento tenha sido consumado e depois de muita luta política e força de vontade, consegue se casar com seu cunhado, Henrique VIII e se tornar rainha da Inglaterra. A partir de então, um muito mimado rei, despreparado para o trono e extremamente volúvel, coloca em movimento as engrenagens que culminariam na destituição de Catarina. 

O maior talento de Philippa Gregory é a sua capacidade de descrever personagens históricos de maneira que seja impossível não simpatizar com eles. Terminamos o livro com a sensação de que queremos saber mais, pois é impossível não torcer por essa princesa cheia de fortes convicções, destemida, guerreira e inteligente. Com A Princesa Leal, não importa muito se já saibamos como tudo termina e sim, toda a jornada de coragem da filha de Isabel e Fernando para se tornar aquilo que sempre acreditou que era seu destino: ser Rainha da Inglaterra. 


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