sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O Ar que Ele Respira




Algumas pessoas parecem precisar agir como se sempre soubessem tudo a respeito de dores que nunca tiveram que suportar. Dão “conselhos” sobre como se livrar de depressões que nunca tiveram, julgam a criação dos filhos alheios mesmo sem nunca terem tido um, sabem exatamente como salvar os relacionamentos, o que há de errado na família do vizinho e até opinam sobre o processo de luto – independente de já terem perdido alguém ou se cada pessoa age e sente de forma diferente. Uma coisa é certa: boa parte dessas pessoas parece morar na Meadows Creek de O Ar que Ele Respira.


Elizabeth é uma jovem mãe lutando para respirar a cada dia por sua filha Emma, depois da trágica morte de seu esposo, Steven, em um acidente de carro. Ela retorna à Meadows Creek, a pequena cidade que vivia com o marido, depois de um ano conturbado morando com sua mãe. Tristan Cole, seu novo vizinho, é o ermitão da cidade: ríspido, grosseiro com qualquer pobre alma que apareça em sua frente e o motivo favorito de fofocas na cidade. Pouco se sabe de seu passado e esses dois personagens amargurados, aparentemente incapazes de recomeçar suas vidas, vão descobrir que apesar do preço alto que vida cobra, viver ainda é a única resposta possível.

Se os romances costumam terminar no “e viveram felizes para sempre”, O Ar que Ele Respira parece um pouco com a vida real nesse caso, pois começa justo quando a ideia utópica de Amor supostamente teria se tornado impossível. Se possuímos o “direito” de apenas um único grande amor na vida, o que fazer quando este é tirado de nós? Até que ponto um coração destroçado pode voltar a bater de verdade, a abandonar os sentimentos de culpa e tristeza por desejar recomeçar, seguir em frente, se interessar novamente por alguém? Como não ficar preso eternamente ao luto, não só por conta do sofrimento da perda, mas até pelas convenções sociais, que querem ditar o “certo” e o “errado” até aí?

A jovem autora conta com maestria uma história forte, recheada de momentos bonitos e assustadores, encaixando-os como se fossem peças de um quebra-cabeça que só vemos com totalidade nas últimas páginas. É uma característica típica de romances policiais que Brittainy C. Cherry adapta com muita naturalidade, sem precisar recorrer a algum “mistério a ser resolvido” ou “quem matou quem”. Esta é uma autora que escreve de fato do seu coração para o coração do leitor e é impossível ficar indiferente!

Além de nos envolver com seus protagonistas, a autora dá brilho extra aos seus coadjuvantes, como a louca, desbocada e ferozmente leal Faye, melhor amiga de Elizabeth; a pequena Emma e sua obsessão por zumbis e monstros; Sr. Henson, o excêntrico dono da loja esotérica onde Tristan trabalha; e tem amor até mesmo para Zeus, o labrador do protagonista e parceiro de aventuras da filhinha de Elizabeth. Apesar do foco no amor romântico, os outros tipos de amor não são esquecidos ou descartados como menos importantes, porque a verdade é que precisamos de todos eles para respirar de verdade.

Elizabeth e Tristan caminham um na direção do outro sem perceberem, se unindo pelas lembranças de seus amores perdidos, procurando o que era conhecido, achando que isso iria acalmar um pouco seus corações, mas encontrando algo inesperado e lindo.  Nada neste livro tem a pretensão de ser perfeito: coisas ruins acontecem com pessoas boas, tragédias pessoais podem ser revividas como pesadelos diários e, para o melhor ou pior, podemos sim conseguir amar de novo e viver plenamente.


Se são as pequenas lembranças do passado que matam lentamente o coração em luto, também são os pequenos gestos de amor no presente que o trazem de volta à vida. Como bem disse a autora, não estar sozinho faz com que estar vivo seja mais fácil e eu espero de coração que a cada sofrimento que sejamos obrigados a enfrentar, nos seja permitido encontrar como Emma, nossa cota de plumas mágicas.



Nenhum comentário:

Postar um comentário