quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Clássicos De Quinta: Fahrenheit 451





“Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar, para levar uma mulher a ficar numa casa em chamas. Tem de haver alguma coisa. Ninguém se mata assim a troco de nada”. 

No Clássico de Quinta dessa semana, gostaria de propor um exercício de imaginação aos leitores ávidos desse blog: Imagine acordar em um mundo onde os livros são proibidos por lei e lê-los é uma transgressão que ameaça toda a sociedade. Olhe para sua biblioteca nesse momento, se puder, e pense em todos aqueles exemplares, incluindo seu e-reader, se o tiver, sendo consumidos pelo fogo, juntamente com a sua casa. Você sendo levado pela polícia como um rebelde para um hospício ou lugar pior, denunciado por um parente ou vizinho. Não pense, não questione, não se aprofunde, não faça perguntas: apenas se divirta, se entretenha, seja feliz com seus comprimidos e interaja com sua “família”: os atores dos programas transmitidos aos seus ouvidos diretamente dos telões gigantescos instalados em diversas paredes de sua casa. Absolutamente tudo o que você deve precisar, já está pronto e mastigado para você. 

Sufocante, não?


Foi nessa ambiência imaginária que o autor Ray Bradbury, em 1953, concebeu aquela que seria sua obra mais conhecida e aclamada. Já falecido, é perturbador perceber o quanto de informação sobre nossa sociedade atual e seu modo de vida que o autor antecipou. Em especial porque, de acordo com a própria narrativa, se passa em futuro distante, mas ainda assim próximo o suficiente para ser incômodo. Juntamente com “1984”, de George Orwell e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451” forma com eles a trindade distópica clássica mais popular da literatura.

A história começa em mais uma noite de trabalho como bombeiro de Guy Montag, nosso protagonista. Nessa sociedade, o trabalho de apagar incêndios está obsoleto, pois a maioria das construções é à prova de combustão e cabe aos bombeiros agora provocar os incêndios: Livros, esculturas, quadros, revistas, filmes, músicas, tudo aquilo que poderia tirar a “paz” e a “felicidade” dos cidadãos é consumido pelo fogo. Voltando para casa depois de terminado seu turno, Guy conhece por acaso a jovem Clarisse McClellan, sua vizinha de dezessete anos que se auto intitula “doida” logo nos primeiros minutos de conversa – uma orientação dada por seu tio e que só fará sentido depois de passado certo tempo na narrativa. Com uma conversa perturbadora, os dois caminham juntos até suas casas e Clarisse dispara aquela que seria a primeira facada mental em Montag: “Você é feliz”? 

As conversas entre os dois se tornam rotina e, paulatinamente, o bombeiro começa a questionar o status quo e tudo o que havia empurrado para o fundo de sua mente. Embora falem de assuntos que pareçam corriqueiros para nós, como as experiências de Clarisse com o mundo e seus pensamentos, na verdade eles carregam uma profundidade inexistente para as outras pessoas daquela sociedade. Como a própria menina diz, as conversas são sobre nada e se algo é dito, é sempre a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém. Essa é uma das razões pelas quais ela é obrigada a ir a um psiquiatra – precisa explicar o que faz com seu tempo, já que não assiste aos telões, não vai aos parques de diversões, não aposta corridas de carros e não socializa como uma jovem da idade dela deveria fazer.

 A gota d´água que precipita o despertar de Montag acontece durante um dos seus chamados na parte antiga da cidade, em que uma velha senhora prefere atear fogo a si mesma e à sua biblioteca do que se permitir continuar vivendo naquele mundo sem poder ler. Nessa noite, Montag rouba um de seus livros, quase inconscientemente. Por fim, Clarisse desaparece e a família McClellan se muda. Daí em diante, a narrativa se torna frenética até culminar em doses iguais de horror e esperança, dignas do clássico que é.

Apesar do enorme foco em Montag, depois em Clarisse, os coadjuvantes também servem para contar essa assustadora história. Temos o chefe dos bombeiro, o capitão Beatty, um profundo conhecedor do assunto que odeia, a ponto de citar trechos dos livros de cabeça. Conhecemos também Mildred, a mulher de Montag. Sua vida ridícula e vazia é representada pelo constante uso das “radioconchas” nos ouvidos, assistindo e interagindo com seus programas de televisão (muito parecidos com nossos reality shows) e o entorpecimento diário dos comprimidos para dormir (overdoses tinham se tornado tão comuns, que os médicos nem mais atendiam essas ocorrências e sim os “operadores das máquinas” que traziam a pessoa de volta). Na terceira e última parte do livro, Faber nos é apresentado. Um velho ex-professor universitário desgostoso e covarde, ele é o segundo “guia” de Montag até onde o conhecimento está. E caminhando pelas velhas ferrovias, o antigo bombeiro encontra seu novo propósito de vida.  

O que me manteve presa na leitura durante todo o tempo e que me faz ainda retornar ao livro e pensar sobre ele, é o fato de que, diferente de outras distopias, o governo totalitário não é o culpado do desuso, abandono e proibição da leitura dos livros. A própria população é a responsável. Ela criou essa sociedade de nivelamento intelectual, para que todos fossem semelhantes entre si e não existisse nada que diminuísse o valor de um diante do outro. O chefe dos bombeiros, capitão Beatty, é o responsável por esclarecer Montag, numa das melhores sequências do livro, de que os livros são armas carregadas nas casas dos vizinhos e que devem desaparecer, pois as pessoas não querem mais o desconforto do sentimento de inferioridade: “A felicidade é importante. A diversão é tudo”, ele explica.  

Conforme explicou Manuel da Costa Pinto, ao citar o poeta alemão Heinrich Heine no prefácio da edição da Globo Livros/Biblioteca Azul, “onde se lançam os livros às chamas, acaba-se por queimar também os homens”



Um comentário:

  1. Ray Bradbury é um autor instigante, visionário e, sobretudo, pleno de humanidade. Longa vida aos livros e filmes. Bjs, Lu.

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