segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Que Há de Estranho em Mim


Dedicado a todas as garotas incompreendidas, este livro se baseia na própria experiência da autora, Gayle Forman, quando produziu um artigo sobre reformatórios comportamentais na revista Seventeen. Como ela mesma afirma em uma nota no fim do livro, embora os locais que ela descreveu não sejam tão rígidos quanto a Red Rock, os pontos em comum existiam e geraram sua primeira obra de ficção, “O Que Há de Estranho em Mim”.



O livro começa nos apresentando a adolescente de dezesseis anos, Brit Hemphill, indo para uma suposta viagem familiar até o Grand Canyon de carro com seu pai. A garota de Portland vive às turras com sua madrasta, a quem chama de “Monstra”, tem um irmãozinho pequeno e uma mãe com uma história complicada, que sumiu no mundo. Ostentando um cabelo colorido, tatuagens, uma atitude de zero paciência com os adultos da sua vida, notas escolares despencando e, ainda por cima, participando de uma banda de punk rock (a Clod), essa receita de adolescente comum pavimenta seu caminho até a Red Rock. A suposta viagem nada mais era do que uma cortina de fumaça para que Brit fosse entregue aos cuidados dessa escola/internato/manicômio juvenil.

Abandonada pelo pai na porta da instituição “para o seu próprio bem”, Brit é imediatamente clinicada pela Dra. Clayton, que não é psiquiatra, com “Transtorno Opositivo Desafiador” – o mesmo diagnóstico dado a toda menina que ali é internada. Embora esse transtorno de fato exista, a maneira como ele é aplicado em Red Rock é que faz com que cause todo um estrago. Esse, na verdade, de forma resumida, é todo o problema da Red Rock: existem meninas ali que de fato precisam de ajuda, mas eles não são qualificados para tratar. E a maioria, verdade seja dita, está só se comportando como adolescentes normais – seus pais é que não tem ou tempo, ou a paciência, ou a vontade de lidarem com isso.

Para sobreviver ali dentro e não enlouquecer de verdade, Brit se une à Martha Wallace, uma gordinha que já foi miss infantil e é obrigada pelos pais a emagrecer de qualquer maneira, à Bebe Howarth, uma patricinha considerada promíscua e filha de uma subcelebridade avoada, à Cassie Jones, uma texana de sexualidade indefinida e pais homofóbicos e à Virginia “V” Larson, que tem ideias suicidas. Juntas, formam o Divinamente Fabuloso e Ultraexclusivo Clube de Malucas – um grupinho que se reúne uma vez por semana como uma espécie de tática de guerrilha para sobreviver à Red Rock e fazer, entre elas, uma espécie de terapia de grupo improvisada.

O livro é incômodo, para dizer o mínimo. As táticas cruéis e as terapias insanas aplicadas nas meninas são de cortar o coração e de formar um bolo na garganta. Afirmando que seus métodos não passam de “amor”, o diretor do lugar, Bud “Xerife” Austin, lidera a dita “Terapia Confrontativa”, que nada mais é do que ir para a berlinda e ser xingada e insultada de todas as maneiras, até que o alvo quebre em lágrimas. A instituição não estimula a amizade entre as internas e sim a competição para subir de níveis e ganhar privilégios, mesmo que para isso precisem dedurar umas às outras. É impossível não ter a impressão de que elas irão sair dali muito pior do que quando entraram.

A terapia mais metafórica a respeito da Red Rock, em minha opinião, é a “Terapia Física”: quatro horas diárias debaixo do desértico sol de Nevada carregando blocos de cimento de mais de 2kg, por mais de cinquenta metros, até os empilharem para construir um “muro” – que é derrubado no fim, para ser iniciado novamente no dia seguinte. Imediatamente fui levada às minhas leituras de mitologia e, em especial, sobre Sísifo, que por ofender aos deuses, foi condenado a eternamente empurrar uma enorme pedra até o cume de uma montanha e sempre que estava quase conseguindo, ela era empurrada de volta para baixo por uma força desconhecida. Como o grego castigado, as meninas estavam condenadas a executar um exaustivo trabalho que não levava a lugar algum, que não lhes trazia nenhum benefício terapêutico e sem a opção de se recusar a fazê-lo.

As “Irmãs Insanas” formam um saudável exemplo da importância e do bem que a sororidade pode fazer às mulheres. Ao invés de seguir o exemplo dado pela Red Rock e estimular a rivalidade, elas resolvem se ajudar como podem e isso é um recado poderoso para um mundo onde a amizade feminina ainda é representada como falsa, de qualidade inferior à masculina e que sim, também têm o poder de nos enlouquecer lentamente se tentarmos atingir seus padrões.
A sensação de desamparo, abusos de diversas facetas, desprezo e traição sentida pelas protagonistas chegam até os leitores de forma muito dolorosa e clara. Simpatizamos, torcemos e ficamos nos perguntando o tempo todo durante a leitura: Afinal, quem realmente tinha problemas, quem de fato cometeu algum crime? As adolescentes “desajustadas” ou seus pais ausentes e desinteressados? 


Um comentário:

  1. Olá Luana.
    Tudo bem?
    Já ouvi falar muito desse livro. Já li diversas resenhas a respeito e confesso que não tenho vontade alguma de ler. É triste. E, pelo que li na sua resenha não vejo o benefício que tal lugar pode trazer a essas meninas ditas desajuizadas. O que o sofrimento pode acarretar a elas? Os pais transferiram seus problemas para terceiros. Bom, como não li o livro tenho pouco a opinar. Mas gostei da sua resenha.
    Abraços!

    Ana Paula Medeiros Silva
    Diário da Leitura

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