sexta-feira, 27 de abril de 2018

A Bela e a Adormecida



Neil Gaiman é o que poderíamos chamar de “trovador moderno”: um contador de histórias aos moldes dos tempos antigos que não poupa seu leitor/ouvinte dos aspectos mais bizarros e macabros das histórias, porque eles simplesmente também fazem parte da vida. E como todo conto de fadas que se preze a seguir sua tradição, “A Bela e a Adormecida” tem a sua cota de bizarrices.

O autor nos apresenta dois reinos, Kanselaire e Dorimar, que são divididos por uma cordilheira montanhosa praticamente intransponível. Três anões, residentes de Kanselaire, descobriram uma passagem subterrânea e estavam a caminho de Dorimar para buscar o mais belo presente de casamento para sua rainha. Quando chegaram ao outro lado e pararam na estalagem de um amigo, ouviram as terríveis notícias: uma maldição havia sido lançada sobre a princesa daquele reino e ela havia caído em um sono encantado. Juntamente com ela, todo o castelo era vítima da mesma condição e passados setenta anos, uma densa floresta repleta de rosas havia fechado a todos ali, como numa tumba.

Muitos haviam tentado despertar a princesa e morreram durante a empreitada. O que deveria ser apenas uma história contada entre uma bebida quente e outra, havia se tornado uma realidade terrível: de um ano para cá, as pessoas dos povoados de Dorimar estavam adormecendo exatamente como na maldição. Não havia como saber até onde a catástrofe iria. Preocupados, os anões retornaram até sua rainha e lhe contaram o ocorrido, pois Kanselaire corria perigo de sucumbir do mesmo mal. A rainha coloca então os planos de casamento com o príncipe em espera, veste sua cota de malha, embainha sua espada, monta em seu cavalo e segue os anões para o castelo amaldiçoado, decidida a resolver ela mesma a situação.

Partindo de uma premissa dita pelo próprio Neil Gaiman em entrevista, de que não têm paciência para histórias em que as mulheres são resgatadas por príncipes, já elas não precisam disso, “A Bela e a Adormecida” é todo construído em cima dessa ideia. Não há nomes para os personagens, mas pelas referências podemos inferir de que a rainha é Branca de Neve, que a princesa amaldiçoada é Bela Adormecida e que a velha ainda acordada no castelo é a feiticeira que lançou a maldição, sempre aguardando para destruir aqueles que tentarem despertar a princesa – ou pelo menos é o que parecem ser. 

Auxiliado pelas estupendas ilustrações de Chris Riddell, merecendo um destaque à parte por um brilhante trabalho gráfico que a edição brasileira fez bem em não desprezar, - Obrigada, Editora Rocco! - o autor criou um mashup destes contos de fadas e incluindo aqui e ali pitadas de outros. Gaiman mantém aqui a tradição oral de histórias contadas durante longos invernos na frente de fogueiras sem romanceá-la, o que torna ainda mais estranho a enorme confusão em cima do beijo entre as protagonistas que acontece e é uma das mais belas ilustrações do livro – que nada tem de romântico. A maioria das versões não-Disney destas histórias envolvem estupros, sogras ogras, canibalismos, madrastas invejosas, mães ruins... Não é lugar para corações fracos.  

Essa sequencia do beijo, por exemplo, é muito importante para o entendimento do clímax da história – a quantidade de interpretações que se podem fazer em cima dessa cena e do que acontece em seguida encheriam páginas e páginas de livros e artigos acadêmicos, podem acreditar. E a beleza dos contos de fadas é justamente essa capacidade de cada um tirar dele o que se precisa aprender, a encarar o que se teme e ser confrontado em suas sombras internas.

O que menos há em “A Bela e a Adormecida”, como já comentei, é romance. A própria história nos dá a entender que a rainha não está lá tão animada com a perspectiva do casamento iminente e que salvar seu reino, além de ser sua obrigação como governante, também é uma boa “desculpa” para adiar a cerimônia. O embate final entre as três mulheres, nas últimas páginas do livro, é de um empoderamento de cair o queixo e é um alívio ver algo tão bem-feito não se preocupar com clichês do feminino, mas se esmerar em distorcê-los, colocá-los de ponta à cabeça e nos deixar com um sorriso no rosto no fim.

Os contos de fadas não foram feitos para serem algo confortável, fácil de digerir ou que não te levem à reflexão. É justamente o contrário disso! Talvez por isso as fadas tenham sido “banidas” hoje para o reino das crianças por muitos de nós: os pequenos não têm nossos problemas adultos ou medos apaziguados à base de entorpecentes, quaisquer que sejam eles. Deveríamos repensar nossa posição a esse respeito, pois como bem colocou o poeta alemão Friedrich von Schiller, “há maior significado profundo nos contos de fadas que me contaram na infância do que na verdade que a vida ensina”



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