sábado, 21 de abril de 2018

Melodia Mortal




Ter um novo livro de Pedro Bandeira para ler foi uma das melhores sensações da minha adolescência como leitora, pois é um dos maiores escritores para jovens que nosso país já produziu. Digo isso sem sombra de dúvidas e, tenho certeza, com o respaldo de muitos autores dessa nova geração da Literatura Nacional, que começou suas leituras acompanhando, por exemplo, os Karas em suas aventuras. 

“Melodia Mortal” é uma incursão de Bandeira juntamente com seu amigo e médico, Guido Carlos Levi, e “com a colaboração de John H. Watson, M.D.”, como a própria capa deixa claro, na literatura adulta. Sem deixar os mistérios de lado, o autor paulistano mergulha sobre as polêmicas mortes de diversos gênios da música que, como é explicado na orelha do livro, seriam assunto de artigos científicos do Dr. Guido Levi, se este não tivesse sido convencido pelo amigo de que a premissa daria um ótimo livro.

A primeira coisa que fica clara, é que se você é fã de Pedro Bandeira e das histórias de Sherlock Holmes e Dr. Watson, “convocados” pelo autor para investigarem e narrarem, respectivamente, parte das histórias, isso aqui é um prato cheio. A narrativa, mesmo fluida e deliciosa de ler, como é típica de Bandeira, tem alguns problemas pelo fato de, na própria capa, você ser levado a pensar uma coisa a respeito da história e ela, na verdade, ser outra. Explico: “Sherlock Holmes investiga as mortes de gênios da música” ENQUANTO está no meio de outros casos. Somos levados a crer que se trata de uma história única ou de várias histórias SOBRE AS MORTES, mas na verdade elas são pano de fundo de investigações em andamento do detetive inglês e seu parceiro médico. Isso pode se tornar um problema, porque o leitor pode ir com uma determinada expectativa e até mesmo se decepcionar com o que encontra... Ou embarcar na jornada e comprar a história, que é o que recomendo.

Cada capítulo é um mini conto dividido em duas partes: na primeira, Watson narra as investigações que se ligam paralelamente às mortes de figuras como Mozart, Tchaikovsky e Chopin, e na segunda, conhecemos a Confraria dos Médicos Sherlockianos, um grupo fanático pelo detetive de Conan Doyle. Tendo encontrado nos porões da Universidade de Londres diversas aventuras inéditas de Holmes envolvendo sua paixão pela música, os médicos reuniam-se para debater o que fora lido e trocar opiniões à luz da ciência moderna, sobre as verdadeiras causas das mortes. Como fã inveterada de Holmes, tive ganas de bater em todos eles por privar o mundo de novos contos, até me dar conta de que eram personagens de um livro de ficção, e não uma Confraria real... Esse senso de realidade aos encontros e discussões atribuo a Guido Levi, porque as informações históricas e médicas ali contidas, de fato, são verdadeiras.

No final de cada conto, recebemos dicas dos autores a respeito de cada músico em questão, o que é uma contribuição fundamental para levar os leitores à música clássica, nem que seja por simples curiosidade. A isso, atribuo a Pedro Bandeira, por já ter demonstrado essa característica de remeter aos clássicos em livros anteriores como “A Marca de uma Lágrima” (Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand) e “Agora Estou Sozinha” (Hamlet, de William Shakespeare), por exemplo.

Eu não escondo o fato de ser totalmente parcial quando o assunto é Pedro Bandeira, Sherlock Holmes e Música Clássica. Não havia a menor possibilidade do livro não me agradar, mas reconheço alguns problemas de quebra de ritmo quando passamos de Holmes para a Confraria – não temos tempo suficiente para conhecer e nos apegarmos aos médicos, como já é o caso com a dupla de Conan Doyle. Ficamos com uma sensação de que poderia ter sido mais. Um livro para cada investigação que, paralelamente, nos remeteria às misteriosas mortes teria sido incrível. Um livro focado plenamente NAS INVESTIGAÇÕES DAS MORTES DOS GÊNIOS teria sido mais incrível ainda.

E aí, Pedro Bandeira e Guido Levi? Que tal levarem a ideia adiante?




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