sexta-feira, 20 de abril de 2018

O Conde Enfeitiçado




Francesca Bridgerton sofre daquele estranho mal do “filho do meio”, apesar de ser a sexta e não a terceira filha: ela existe, mas se perde no limbo que são os mais velhos e os caçulas e acaba esquecida. Muito pouco citada nos livros anteriores, à exceção do de Eloise, nós não sabemos bem o que pensar dela porque a própria autora não nos deu muito para trabalhar. Essa alienação é proposital e só descobrimos o motivo quando mergulhamos em sua história.

Francesca é Lady Kilmartin, casada com John, o anglo-escocês Conde Kilmartin e prima por casamento de Michael Stirling, a inseparável sombra, melhor amigo, irmão de criação e confidente de seu marido. Como sempre se sentiu diferente do restante da família, sendo mais reservada e com uma sagacidade diferente de suas extrovertidas irmãs, foi um alívio para ela casar e sair da tumultuada Casa Bridgerton. Anteriormente, nossos olhares se concentraram no Número Cinco e seus habitantes e para muitos leitores, esta não é uma das histórias favoritas justamente por nos afastar um pouco do ambiente da família. Permita-me discordar de você, se for esse o caso, e lhe apresentar meus motivos para defender esta personagem e esta história.

O ritmo inicial do livro é completamente diferente do que estamos acostumados até então: não há debutantes, não há bailes seguidos na sociedade, não há uma mocinha sonhando com sua temporada e seu príncipe, mas uma mulher madura, sarcástica e já casada há dois anos, o que faz dela muito mais vivida do que suas irmãs. Sua vida era praticamente perfeita em todos os quesitos, mas falta na narrativa esse tipo de “emoção jovem”, digamos assim, que Julia Quinn nos ofereceu até então – o que para muitos fez a diferença entre gostar ou não deste livro.

Nas primeiras trinta páginas, já levamos um murro bem no meio da cara quando John morre, tornando assim Michael o novo Kilmartin, mas com Francesca grávida, o título fica em suspenso e a gente, sem saber muito que pensar. John não era para ser o mocinho, já que é casado com Francesca? Onde entra Michael nesse balaio?

Logo entendemos que o Devasso Alegre, como Michael Stirling é conhecido na sociedade londrina, sofre de uma imensa paixão platônica por Francesca desde a primeira vez que a viu, trinta e seus horas antes de se casar com seu amado primo. A fim de suportar ver o feliz casal, já que é amigo próximo de ambos, firma sua reputação de canalha numa triste tentativa de substituir o verdadeiro objeto de sua afeição. Quando John morre, Francesca perde o bebê e tudo o que era do primo se torna legalmente dele, Michael sofre ainda mais do que já sofria antes.

Este é um mocinho complexo, carregado de culpa pelo que sente, culpa por herdar até as botas de John e reage com horror e choque ao que a sociedade chama de “imensa sorte”. Michael nunca desejou o título, a ascensão social, o dinheiro, apenas a mulher e isso já o atormentava o suficiente. No fim das contas, ele só queria seu primo de volta, mesmo que lhe custasse Francesca e isso diz muito a respeito de seu caráter: o que outros celebram como bem-aventurança, ele odeia com todas as forças.

Francesca é uma personagem interessante, porque ocupa uma posição muito privilegiada e rara naquele tempo, que era o de uma viúva rica. As restrições e regras sociais que cabiam às mocinhas não se aplicam a ela, nem na juventude que ela está vivendo e menos ainda numa futura velhice, como é o hilário caso de Lady Danbury. Sua condição também nos permite ter um breve, mas necessário, vislumbre da Violet Bridgerton jovem e seus motivos para permanecer viúva, assim como os de Francesca para querer se casar novamente. Diferente de muitas mocinhas de época, Francesca pôde tomar o controle de sua própria vida e ir em busca de um novo marido, quatro anos depois de luto completo. Duplamente dotada financeiramente pelos Bridgertons e pelos Stirling, se torna a desejável da temporada e o pesadelo de Michael fica ainda mais enegrecido: terá ele que suportar novamente perder a mulher que ama há seis anos, sem nunca se declarar? Assistir sem nada fazer a fila de pretendentes que se forma em sua porta?

Francesca e Michael dançam lentamente a mais sedutora e antiga das danças do mundo e acompanhar um amor maduro florescer, é algo que poucos livros atuais e famosos se dão ao trabalho de nos mostrar, já que a maioria das protagonistas ou está na escola, ou acabou de sair dela. Nada contra, também amo essas histórias quando bem-feitas, mas já tendo passado dessa fase, enxerguei em Francesca e em Michael uma profundidade que os outros livros da série não podem nos oferecer. Não era ilegal para ambos se casarem, mas seria moral? Como lidar com a perda de John, de um bebê, de um futuro? Como ser feliz de novo se isso parece desonrar o que se sentiu anteriormente? Como superar a culpa que ambos sentem?

Se ainda não leram esta história, corram. E se já leram, permitam-se, como os personagens, a dar uma segunda chance e reler com novos olhos. Garanto que não irão se arrepender.  



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