sexta-feira, 13 de julho de 2018

Aos Dezessete Anos




Ava Dellaira chegou ao mercado editorial metendo o pé na porta com “Carta de Amor aos Mortos” e com o sucesso estrondoso, eu estava com uma enorme expectativa para ler seu segundo trabalho, “Aos Dezessete Anos”, e felizmente ele é o livro da nossa resenha de hoje.

Como fã inveterada de Gilmore Girls, adorei a forma como a autora dividiu o enredo e a narração entre a mãe, Marilyn, e Angie, sua filha, quando ambas estavam com dezessete anos. Passado e presente que parecem se espelhar com a presença de conflitos inerentes à idade, mas com o toque distinto do choque entre gerações, o preconceito racial, problemas com drogas, vícios em jogo e álcool, atender expectativas irreais da sociedade e da família...

Como Angie poderia lidar com a própria vida em um momento já conturbado da adolescência, quando está começando a partir para a vida adulta, se descobre que a história que sua mãe lhe contou a vida inteira a respeito do pai morto pode não ser verdade?

Dentro do jipe de Sam, seu ex-namorado e companheiro nessa busca, Angie decide sair da cidade e ir atrás de sua própria história familiar em Los Angeles, local onde há indícios de que seu pai, James, está vivo. A autora toca em um ponto nevrálgico ao criar uma protagonista mestiça, filha de uma mãe loira, branca e de olhos azuis, com um pai negro supostamente ausente. Todas as questões referentes aos privilégios dos brancos e o racismo sofrido pelos negros estão lá expostos de forma clara e contundente: um problema que não afeta só os personagens, mas os negros e as negras do lado de fora no mundo real.

Sendo identificada como branca, fico desconfortável em falar sobre um preconceito que não vivo no meu cotidiano, pois este não seria meu lugar de fala. Posso, porém, ressaltar que os privilégios raciais vividos pelos brancos e descritos ali no livro são reais, as injustiças que advém de uma sociedade sustentada por esse pensamento cruel também existem e nós, como leitores, acabamos por fazer uma bem-vinda reflexão sobre este importante assunto, mesmo que toda essa carga dramática esteja disfarçada num romance YA, que costuma levar uma fama – que não condiz com a maioria das obras – de ser literatura rasa.

Angie descobre muito mais do que esperava ao buscar suas raízes e família paternas, assim como Marilyn tem uma nova chance de, quem sabe, ser novamente feliz depois de passar por tantas coisas. É muito bonito de se ler como a autora tece a história da filha e da mãe de tal maneira que só os permite compreender o lado de uma, porque conhecemos o lado da outra, e como atitudes aparentemente pequenas que adotamos em certo momento da vida, podem ter uma proporção no futuro da qual não fazemos a menor ideia. Se dezessete parece uma idade muito jovem para tomar tantas decisões, que tal acrescentar uma gravidez não planejada, problemas financeiros e preconceito na mistura? Que tal inserir ainda traumas emocionais tão profundos, que nos fazem afastar as pessoas que amamos, simplesmente por que não conseguimos lidar com elas e conosco ao mesmo tempo? O amor é mesmo suficientemente forte para vencer no final?

Eu me apeguei mais à Marilyn e sua história com James do que à Angie e sua busca, embora a carga de realidade necessária para a história esteja presente em ambas. Mas, puxa vida, a vida foi MUITO cruel com a mãe e o pai da protagonista! Em vários momentos me peguei muito emocionada com a dureza do que lia, mas Dellaira não é uma autora que faz as coisas pela metade: se é drama, pessoal, entendam que é DRAMA mesmo! Mas não é do tipo barato e sim, daquele que é construído de forma a fazer com que você realmente se importe com o destino dos personagens e que te deixa pensando sobre o que leu, dias depois de já ter terminado a história.

Recomendo fortemente a leitura, mas aviso: preparem os lencinhos! 



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