sexta-feira, 20 de julho de 2018

Simplesmente O Paraíso





Se você já leu algum dos livros da Série Bridgertons de Julia Quinn, sabe que uma parte integrante dos compromissos sociais daquela família incluía o pavoroso concerto anual das Smythe-Smiths, onde gerações de moças exibiam suas “habilidades” na música clássica e, aparentemente, não tinham a menor noção do quanto eram ruins. Julia Quinn, em uma breve carta aos leitores brasileiros presentes no Box da Quadrilogia Smyhte-Smith, explica que passou a se indagar se aquelas moças realmente eram tão ignorantes a respeito de sua música e se não fossem, será que essa obrigação familiar as incomodava? Como seria caso se apaixonassem? Daí nasceu seu desejo de contar um pouco mais sobre essa família, as jovens e sua tradição musical.

Em “Simplesmente o Paraíso”, primeiro volume de quatro, Honoria Smythe-Smith é a protagonista e toca violino com plena consciência de que não faz jus nem ao instrumento, nem ao magnífico Mozart. Mas, se eu pudesse escolher as palavras-chave desse livro e que definem a própria Honoria, seriam “abnegação” e “amor à família”. A maneira como ela enxerga os concertos e o fato de ter um imenso prazer em estar com suas primas nos ensaios e de tocar com elas, foi uma enorme surpresa para mim e uma sacada especial da autora, pois ao mesmo tempo em que nos faz sentir levemente envergonhados por já termos rido junto com os Bridgertons dos soirées desastrosos, nos levou também a olhá-los com um carinho e respeito inesperados. Esta é uma família que praticamente não tem ouvido algum pra música, mas amava a tradição de assistir suas moças se apresentarem e têm um imenso orgulho delas.

Duas décadas de jovens solteiras já se apresentaram durante a temporada casamenteira em Londres e Honoria, indo para a sua segunda rodada no “mercado londrino”, está desesperada: Desde que seu irmão mais velho, Daniel, herdeiro do condado de Winstead, foi obrigado a se exilar na Itália por conta de uma altercação com o filho de um marquês que terminou mal e cujo pai jurou vingança, sua vida se tornou um tormento. A mãe parecia viver num mundo à parte desde então e a casa de Honoria se tornou fria e solitária. Casar para ela era mais do que uma questão de status social, mas havia se tornado uma necessidade, caso quisesse voltar a ter uma família alegre e um lar verdadeiro como já havia tido.

Sendo filha de um conde e com um dote mais do que suficiente, já deveria estar casada. O problema, aparentemente, vinha na forma do Conde de Chatteris, Marcus Halroyd, melhor amigo de Daniel desde a infância e encarregado por este, antes de fugir para outro país, de evitar que Honoria se casasse com um imbecil. Tímido, taciturno e avesso à vida social da cidade, Marcus tinha Honoria como uma irmã caçula e levava sua tarefa a sério. Tão a sério, que tinha sido bem-sucedido até agora agindo nas sombras, sem que a jovem soubesse. Afinal, quem seria bom o suficiente para o Carrapato (delicado apelido de infância de nossa pragmática protagonista)?

Apesar de sabermos desde o início onde a história vai dar, fiquei aliviada ao perceber que a autora conseguiu imprimir um estilo de escrita levemente distinto de sua série passada no mesmo universo. O humor característico da autora está presente, pois Honoria é inteligente, sarcástica e interessante, mas de um jeito totalmente diferente de Eloise ou Hyacinth, por exemplo. Eu temia que Julia Quinn não conseguisse sair da “estética Bridgerton” e acabássemos lendo mais do mesmo, apenas trocando as famílias e foi bom perceber que estava um pouco equivocada.

Nosso herói não é um libertino, como poderíamos esperar, mas um homem sério e solitário, de uma família pequena e que permanece à margem da vida, mais observando do que interagindo. Sua relação com Honoria é desprovida da maioria das regras sociais, pois existe uma enorme familiaridade entre os dois. Eram francos um com o outro desde a infância, sem subterfúgios, mantendo uma amizade madura que floresce para algo a mais enquanto se redescobrem como adultos. A força de Honoria, seu desprendimento e bondade a fez muito interessante e de fácil apego para o leitor, que torce a todo o momento que os dois descubram logo que nasceram para ficar juntos – com uma participação mais do que especial e definitiva de Lady Danbury e sua bengala no assunto.

Antes do final feliz, porém, sempre temos A Treta. E que treta!

Da metade em diante do livro, este se torna tenso e frenético. Não posso dar detalhes, mas vou apenas dizer que amamos os romances de época - onde tudo parece mais bonito, elegante e romântico – porém, por razões óbvias, ignoramos os problemas daquele período histórico. Por exemplo, as inúmeras mortes por doenças e infecções que hoje nos parecem de simples tratamento. Antes de lermos nosso casal ser “feliz para sempre”, podem acreditar, vamos passar por um nervoso absurdo!

De negativo, me sinto na obrigação de apontar o arco de Daniel Smythe-Smith, que começa e termina de um jeito meio “jogado”, quase uma obrigação de fechar pontas soltas para que a história terminasse “bem”. Tirando isso, é uma excelente maneira de começar uma nova série desta autora maravilhosa!



Nenhum comentário:

Postar um comentário