sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Enterre Seus Mortos


Ana Paula Maia é uma escritora brasileira que já publicou sete romances, sendo este o primeiro com que tive contato. Pesquisando a respeito, descobri que ela já foi publicada em diversos outros países e que seus livros se passam em um mesmo universo e que a cada obra vai sendo revelado aos poucos, dando protagonismo a personagens já mencionados anteriormente. “Enterre seus Mortos” é um desses casos, pois Edgar Wilson, a figura que acompanhamos, é citado em outros livros – não é necessário ler em algum tipo de ordem, já que, se posso tomar esta obra como padrão, a autora faz um recorte dentro de um determinado tempo e lugar que não exige nenhum conhecimento prévio.

Se, em tese, Edgar Wilson e seu companheiro Tomás, um padre excomungado, são os protagonistas da história, depois que a leitura acaba você acaba tendo um tipo diferente de impressão: A miséria e a brutalidade humana é quem dão as cartas. Os dois homens apenas as recolhem pelas estradas.

Ambos vivem em um pequeno município que lentamente se esgota desde a construção de uma rodovia próxima, deixando para aquelas pessoas apenas a aridez de uma rocha de calcário, de onde a maioria da renda se origina, a fé desesperançosa em um Deus que parece ter sumido – o que não impede a briga por fiéis e o controle pelo medo, culpa ou ganância, descritos em forte tom crítico bem pertinente ao nosso momento – e o trabalho de recolher das estradas as carcaças dos animais, realizado por homens como Edgar Wilson e Tomás.

A primeira guinada na história acontece quando eles se deparam com o corpo de uma mulher enforcada no meio do mato, atraídos pelo aviso dos abutres rondando a área, e se veem numa situação em que decidem não deixa-la apodrecendo ali, até que a precária polícia possa retirá-la e começar uma investigação. Se os animais mortos são recolhidos em uma eficiência de relógio suíço, o mesmo não pode ser dito a respeito das pessoas. Com um IML abarrotado saído dos piores pesadelos, um rabecão quebrado e aguardando a reposição de peças, uma única ambulância para atender a todos os chamados e policiais em número insuficiente para cuidar da demanda necessária, os mortos são deixados para enterrarem a si mesmos: em sua maioria esquecidos e não reclamados por famílias, amigos ou entes queridos, fazendo parte da paisagem inóspita e inclemente que Ana Paula Maia criou para seus personagens.

Numa narrativa aflitiva, engasgada e angustiante, acompanhamos o cotidiano de nossos protagonistas – um preocupado com as almas, outro com os corpos – e a sensação de incômodo não te abandona em momento algum. Não é um livro para ser lido com leviandade, menos ainda em um momento que você não esteja emocionalmente bem, pois a rotina brutalizante que parece não afetar mais aqueles homens nos dói até o âmago. Até onde nossa miséria como espécie pode chegar? Que mundo é esse regido cronologicamente pelas explosões sistemáticas de uma pedreira que ao mesmo tempo em que sustenta os poucos que ali vivem, também é seu algoz, quer seja pelas pedras atiradas a esmo podendo destruir a tudo e a todos, quer seja pelo ar contaminado e mortal? Esse vazio total de existência os dessensibilizam a tal ponto, que os poucos e pequenos gestos de generosidade são permeados pela violência de quem vive sempre um passo atrás da morte.

Esta não é uma sociedade distópica criada para espelhar criticamente a nossa ou um mundo pós-apocalíptico que desperta o pior nos homens, no estilo Mad Max de heroísmo e fúria. Este universo é ficcional, mas carregado de um realismo perturbador, pois seus personagens não foram feitos para serem heróis ou vilões, mas pessoas seguindo o fluxo de suas vidas em um ambiente de precariedade ingovernável. A necessidade de prover algum tipo de fim digno para alguns dos mortos que encontram, mesmo não sendo este seu trabalho e correndo até o risco de perdê-lo por isso, vêm do medo de serem eles mesmos os próximos abandonados e esquecidos.

Construído sem uma única grama de “gordura” no texto, um dos seus pontos mais fortes, “Enterre seus Mortos” destoa e muito da produção literária nacional com a qual estamos mais acostumados (digo isso de forma elogiosa) e visitar este universo em construção vai render muitos questionamentos pessoais pelo forte tom de crítica social e uma curiosidade em acompanhar o percurso de Ana Paula Maia.



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