sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O Conto da Aia


Como fã explícita e confessa de distopias, era só uma questão de tempo e oportunidade para que Margaret Atwood e uma de suas obras-primas aparecessem por aqui. A popularização da obra através da série produzida pela Hulu – The Handmaid´s Tale – com um elenco dando um show inesquecível de atuação, me compeliram a reiniciar a leitura dessa história que apesar de passar em um universo pós-apocalíptico, parece cada vez mais próximo e real do nosso cotidiano.

O básico da história, sem dar muitos detalhes para evitar spoilers, é que o que conhecemos como Estados Unidos agora é a “República de Gilead” e apesar do ar “democrático” e “bíblico” do nome, é um estado teocrata radical, militarista e autoritário. Suas maiores vítimas? Mulheres como um todo, cientistas, opositores políticos, filósofos, professores... Os direitos civis femininos e dos LGBTQ+, por exemplo, desapareceram. A interpretação literal da Bíblia cristã, em especial o Antigo Testamento, é a regra da qual saem todos as leis dessa nova sociedade, na perspectiva dos homens que estão no poder. 

Na hierarquia, as mulheres ocupam o lugar mais baixo: ou são as Aias, das quais falarei com detalhes mais adiante, ou são as Marthas, mulheres responsáveis pelos serviços domésticos das casas dos ricos e que estão fora da idade fértil, ou são as Esposas, propriedades de seus maridos poderosos e administradoras de seus lares. Estas são mulheres mais velhas com acesso a certas regalias, mas mesmo sendo o grau mais alto que uma mulher pode alcançar em Gileade, elas não possuem também os direitos mais básicos, como ler, possuir propriedades, votar, ou exercer uma profissão, por exemplo. Existem ainda aquelas categorizadas como Econoesposas: são Marthas, Aias e Esposas, tudo ao mesmo tempo, para seus maridos, os homens comuns da República. Por fim, existem as Tias, senhoras responsáveis pela educação, treinamento e controle contínuo das Aias para o “serviço de Deus”.

Caso uma mulher não se adeque a nenhum papel social pré-estabelecido, não tendo assim nenhuma serventia e função, ou recusa seu lugar na sociedade, é considerada uma Não-Mulher e é enviada para o trabalho escravo nas Colônias, onde a morte é certa.

O foco da escrita da autora canadense é na figura das Aias, jovens mulheres que ainda detém capacidade reprodutiva e que são usadas à força como “barrigas” para as famílias dos comandantes do novo regime, cujas esposas em sua maioria são inférteis ou já passaram da idade de terem filhos. Não é dito explicitamente como ocorreu essa baixa na capacidade reprodutiva, mas a poluição, conflitos armados em alta escala e a presença de radiação na atmosfera, nos dão algumas pistas do que pode ter acontecido.

Baseando-se na passagem bíblica do livro de Gênesis, no qual Raquel, a mulher de Jacó aparentemente, infértil, oferece sua serva Bila para que através dela pudesse ter os filhos que desejava dar ao marido, Atwood constrói os papéis das figuras das Aias e das Esposas. As Aias são corruptelas de Bila, e numa cerimônia de estupro fantasiada de momento santo, os homens forçam-se nessas mulheres com a ajuda de suas esposas, as “Raquels” da história, que seguram os braços das Aias, deitadas entre suas pernas, colaborando e assistindo a tudo. Caso não consiga conceber, a culpa é inteiramente da aia e é punida de acordo.

Ficou com o estômago embrulhado? Essa é a ponta do iceberg.

Nossa protagonista é uma dessas aias, Offred (que significa “de Fred”, o Comandante a quem ela está servindo no momento), e com idas e vindas temporais, descobrimos quem Offred – na verdade, June – era antes do colapso americano e como todo esse processo foi articulado. As semelhanças com a nossa atualidade, levando-se em conta que foi uma história escrita em 1985, mostram a atemporalidade da luta das minorias, em especial da feminina e a necessidade de constante vigilância. Gilead não foi construída da noite para o dia, mas paulatinamente, com a aquiescência e ajuda do povo e das próprias mulheres, em busca de “segurança” e “soluções mirabolantes e messiânicas” para os problemas de onde viviam.

Soa familiar? Pois é. Mas, não cometam o erro de reduzir a história criada por Atwood a apenas um espectro da política, pois muito do que acontece com as mulheres de Gilead, ocorre todos os dias nas ditas “nações democráticas e civilizadas” do nosso mundo. A inimizade e intriga entre as próprias mulheres, estimuladas pela nossa própria sociedade, também está lá. Como toda boa ficção científico-distópica, o livro não se permite ser encaixado para atacar apenas um grupo e agradar a outro. É feito para alertar a todos, atingir a todos como um soco no estômago e provocar uma bem-vinda reflexão, mesmo que nauseante. O talento da autora é inegável, a narrativa é como um massivo acidente acontecendo diante dos nossos olhos e do qual não conseguimos desviar, e quando chegamos nas últimas frases, fechamos o livro com uma sensação de sufocamento que demora e muito a passar.

Esta não é a representação de uma sociedade que triunfa no fim, mas que pelo “bem comum”, passa como um trator por cima do que e de quem precisar. Recomendo o livro, mas aviso que há gatilhos presentes, e indico também que assistam à série, que já conta com duas temporadas e com uma terceira já encaminhada. Leitura imperdível e não se esqueçam:

Nolite te bastardes carborundorum, bitches.





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