terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Graça e Fúria






Recém-saída do universo de O Conto da Aia, entrei no mundo fantasioso de Graça e Fúria sem saber o que esperar. Com uma linda e delicada capa e que me remeteu à série “A Seleção”, achei que seria uma leitura leve e juvenil, no máximo uma distopia com gatinhos e drama adolescente de garotas. Não poderia estar mais enganada: O universo de Tracy Banghart tem muito mais em comum com o de Margaret Atwood do que com o de Kiera Cass.

A história se passa na fictícia Viridia, tendo duas irmãs como protagonistas: Serina e Nomi Tessaro. A mais velha das irmãs treinou a vida inteira para ser o que naquela sociedade é conhecido como “Graça” – mulheres escolhidas de três em três anos pelo Superior para servirem a ele como quiser e da forma que escolher. Não há rainhas ou princesas, ou mulheres de carreira: elas apenas podem ser Graças e aias, se tiverem sorte, ou criadas, trabalhadoras das fábricas e “esposas” – meninas vendidas a homens com o único propósito de procriação. Dentre as “Graças”, existe aquela que vai para a cama com o governante e é conhecida como “Graça Superior”, sendo a líder e responsável pelas outras mulheres escolhidas.

Aos homens, obviamente, as opções de vida são muito melhores, mesmo que ainda se trate de um tipo de monarquia.

Não precisa de muita dedução para perceber que essa história retrata mais um massacre ficcional dos direitos das mulheres, que não podem aprender a ler ou nem mesmo ter contato com livros, por exemplo – Alô, Fahrenheit 451 –, pois o único propósito delas é servir. Levando-se em conta que vivemos em pleno século XXI e ainda existem meninas sendo vendidas pelas famílias, prostituídas, casando-se com homens com o dobro ou triplo de suas idades quando elas nem mesmo saíram direito da infância, a narrativa de “Graça e Fúria” tem aquele incômodo de ser uma distopia próxima demais da realidade.

Serina enxerga a posição de Graça como algo a ser almejado, se quer conforto para sua família e melhorar sua posição social, além das regalias esperadas. Então, treinou para ser a mais perfeita possível. Nomi, a mais nova, é rebelde e não aceita bem a infinidade de regras impostas para as mulheres, mas será a aia de sua irmã e a ajudará a conseguir e manter o posto, custe o que custar. No dia do baile do herdeiro, a grande ocasião em que as Graças são escolhidas, Nomi chama a atenção do machinho chefe com sua postura e acaba sendo escolhida Graça no lugar de sua irmã, que passa a ser uma aia. Como se as coisas não pudessem piorar o suficiente, Nomi rouba um livro da biblioteca real e é Serina quem assume a culpa, para poupar a irmã. Com isso, ela garante uma passagem só de ida para a prisão em Monte Ruína, uma ilha onde as mulheres que não cumpriram seus papéis são alocadas em condições deploráveis e Serina precisará, literalmente, lutar para sobreviver, enquanto Nomi navega pela corte e busca um jeito de salvar sua irmã.

Tensão é um sentimento presente em todo o momento da leitura, pois Tracy Banghart deixa pouco para a imaginação e a história é cheia de gatilhos, contendo estupros e insinuações dele, assassinatos, diversas formas de abuso, diferentes formas de violência e até cárcere privado. Alternando os pontos de vista das duas irmãs, acompanhamos suas desventuras e forçadas tentativas de adaptação estratégica aos seus papéis. Tudo o que elas mais desejam é se reencontrarem e esse sentimento carrega a história até o fim. Senti uma vibe muito Sansa e Arya Stark de “Game of Thrones”, mas se eu der detalhes dos meus motivos, acabarei revelando partes da história que são cruciais para o leitor realmente aproveitar a experiência.

Vocês devem estar se perguntando: “Mas, e o romance? Tem ship pra gente fanficar?”. Olha, meu povo, até tem romance, mas eu passei batido pelos dois e nem fiz questão de falar muito, simplesmente porque já li esse mesmo plot em outros livros. Esse é o único ponto negativo de toda a história em minha opinião. Se a autora se esforçou para criar duas protagonistas empoderadas numa sociedade machista e opressora, os casais não conseguiram decolar, convencer e os gatinhos não me chamaram a atenção em nada – por mim, a história teria sido inteiramente focada na relação das duas irmãs dentro daquele universo. Graças a Deus o romance não ofuscou o que realmente interessa na história.

Obviamente, tudo terminou com um gancho de arrancar os cabelos da cabeça com pinça, e o segundo volume sairá no ano que vem e espero que a Editora Seguinte, em nome de Odin, não demore a nos presentear com a obra traduzida. Vale a conferida SIM!


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