domingo, 16 de dezembro de 2018

Uma Coisa Absolutamente Fantástica






No romance de estreia de Hank Green, irmão do já consagrado John Green, podemos deduzir que a inclinação literária não ficou toda nas mãos de apenas um deles. Esta é uma história muito divertida que mistura redes sociais, o impacto delas em nossas vidas, o custo da fama inesperada, um mistério com estátuas gigantes e uma protagonista descobrindo quem ela é no meio disso tudo.

April May, o foco narrativo da história, estava vivendo a vida dela numa boa trabalhando em uma startup – mais modernoso, impossível – e em uma noite qualquer, se depara com uma escultura gigante. Ela não estava ali quando a jovem passou a caminho do metrô e resolve gravar um vídeo sobre aquilo com a ajuda de seu amigo Andy. O registro viraliza quando mais estátuas aparecem ao redor do mundo, pois Andy e April foram os primeiros a filmarem a coisa toda.

Começa aqui um frenesi da imprensa sobre os dois, que se tornam celebridades instantâneas e April, especificamente, vira um tipo de “autoridade” no que concerne os robôs. Obviamente são gerados questionamentos a respeito do que são aquelas estátuas (que April apelidou de “Carl” e a coisa pegou), seus objetivos, o motivo pelo qual apareceram, enquanto várias outras coisas absurdas acontecem ao mesmo tempo. Não é exatamente um livro de ficção-científica, mas tem traços do gênero e uma pegada muito “Black Mirror”.

Meu único problema com a história toda é que o autor, por alguma razão, não quis explicar a existência dos “Carls”, seus motivos e objetivos no nosso mundo. Tudo bem, eles servem como metáfora para um dos muitos tópicos relevantes que Hank Green se propôs a trabalhar, mas se você se interessou mais pelos “Carls”, como eu, do que pela própria April May, que é uma mala completa, a decepção deixa um gosto amargo na boca. Se você é um leitor que por exemplo, amou o final da série “Lost”, não vai ter problema algum em deixar os robôs pra trás e curtir a aventura, mesmo com aquele final problemático e apressado.

Como youtuber, percebemos a clara intenção do agora autor de discutir sobre algo que ele vive na pele, que é a imensa importância e o lugar cada vez maior que o virtual está ocupando em nossas vidas. Se antes April May era apenas mais uma garota nova-iorquina que nem Twitter tinha, tudo muda após se tornar uma celebridade. Sua vida passa a ser medida em curtidas, tuitadas e retuitadas, visualizações, monetização, criar conteúdo que prenda a atenção de seu público e a manter-se “relevante”. A relação com os coadjuvantes da história, Andy e Maya, namorada da personagem principal, é de doer a cabeça com o tanto de egoísmos e babaquices que April May é capaz de chegar. Ficou claro que essa foi uma escolha proposital do autor, mas não me impediu de querer estapear a garota em diversos momentos.

O mundo virtual de “Uma Coisa Absolutamente Fantástica” se torna cada vez mais “real” do que a própria realidade e em nada difere do que já vivemos aqui, do lado de fora das páginas. E se a internet tem lá suas vantagens inegáveis, Hank Green também não deixa de apontar a dificultosa relação entre os haters e os produtores de conteúdo. Atrás da tela de um computador, qualquer pessoa pode se sentir segura o suficiente para escrever coisas que jamais afirmaria em voz alta. Quando April começa a receber sua cota de ódio nas redes, lemos os efeitos que isso causa em sua vida, o que cria uma identificação enorme com o leitor. Afinal, quem nunca tomou um fora do nada na seção de comentários de um site, foi chamado de nomes horríveis, ou serviu de chacota para grupinhos que printam suas publicações?

Hank Green vai ainda mais além e aponta os perigos do ódio ao diferente e ao desconhecido, a polarização intransigente entre grupos – uns querem destruir os robôs, outros pensam em aproveitar a chance para trocar conhecimento –, um fenômeno que vivemos tão recentemente em nosso Brasil de 2018 e que, infelizmente, parece que não vai acabar tão cedo. Parece que este é o primeiro volume de uma série, então pode ser que as respostas sobre os “Carls” ainda venham, para minha alegria. No mais, valeu pelos questionamentos levantados e por não ficar na sombra do irmão mais famoso, tendo voz própria já tão cedo. Ansiosa pelo próximo!   



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