quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Romance Tóxico




“Percebo agora qual é o problema. Não é seu ciúme, os mundos diferentes em que vivemos, as regras dos meus pais, mas o fato de eu ter me tornado um dente-de-leão. Você dá um sopro e eu vou para todos os lados.”

Quando cheguei ao final do livro dessa resenha, não pude deixar de lembrar da frase de “As Vantagens de Ser Invisível”: “Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos”. Durante boa parte do livro, essa frase permaneceu na minha cabeça e depois de finalizar a leitura, eu soube exatamente o por quê disso.

“Romance Tóxico” é um daqueles livros intragáveis e maravilhosos exatamente na mesma proporção. Ele é o primeiro livro de Heather Demetrios publicado no Brasil e desde já, a autora pode ser colocada na sua lista de leitura obrigatória, e de preferência bem no topo.

Logo no início, percebemos que é um livro diferente. Em grande parte, pela forma que a autora escolheu para contar essa história e também pela delicadeza e veracidade presente em cada um dos parágrafos e diálogos ao longo da narrativa.

Ele conta a história de Grace e seu amor mal sucedido com Gavin, mas vai muito além disso.

Grace é uma mulher como qualquer uma de nós e começa a contar sua história a partir do fim, nos garantindo o alívio de que tudo vai ficar bem do melhor jeito possível. Daí em diante, ela volta ao início e segue narrando sua história com Gavin. Antes dele, porém, ela já tinha enormes problemas dentro da própria casa: uma mãe negligente e com uma mania de limpeza descontrolada – um TOC não diagnosticado –, um padrasto agressivo a quem ela chama o tempo inteiro de Gigante, e um pai ausente.

Ela nos coloca a parte de detalhes de sua vida enquanto relata a paixão platônica por Gavin, que era o clássico rockstar do ensino médio – popular, misterioso e desejado por todas. E, posteriormente, como esse amor de adolescente se tornou um relacionamento abusivo e perigoso, sem que ela sequer percebesse o que estava acontecendo.

É impossível não dizer que esse é um livro mais que necessário. Heather nos mostra o relacionamento abusivo de uma forma muito próxima, nos faz sentir parte daquilo e querer, mais do que tudo, ajudar e entender o que se passa com Grace durante todo o tempo em que ela está com Gavin. A autora nos faz ver a importância do apoio externo às pessoas que passam por esse tipo de situação, na figura das duas melhores amigas da protagonista, que são dois anjos maravilhosos.

Nós acompanhamos todo o processo que Grace passa no início do namoro deles – que se inicia logo após uma tentativa de suicídio de Gavin, quando sua antiga namorada termina com ele – até o momento em que ela se dá conta de que o que eles têm não é um relacionamento normal. É quando começa a lutar por sua liberdade e nós sentimos tudo isso com ela como se pertencêssemos à sua história.

Uma das muitas coisas incríveis nesse livro, é o fato de Grace narrar como se conversasse com o próprio Gavin, depois de tudo o que passaram. O uso de “você” como forma de tratamento por todo o livro, nos faz sentir um angústia, como se ela também se referisse a nós como culpados por aquilo. O fato dela contar a partir de uma perspectiva pós-abuso, faz com que ela veja o que, antes, não era claro. Enfim, ela enxerga tudo o que tinha de tão errado e reconhece o que pra quem está do lado de fora, parece óbvio.

“Algo em mim está se apagando, algo que já sei que não vou conseguir recuperar. Mas você vale a pena. Vale, sim. Direi isso a mim mesma por vários outros meses. E, quando perceber que você não vale a pena, vai ser tarde demais.”

Contudo, nós aprendemos o quanto as relações abusivas vão além do que imaginamos. Não se trata só de um homem e uma mulher, nunca se trata apenas disso, no caso específico de Grace se tratava da sensação de abandono, baixa autoestima, dos abusos que ela já havia sofrido... Antes de enxergar em Gavin o monstro manipulador e abusador que ele é, ela via apenas o bote salva-vidas que a tinha ajudado a resolver os problemas com a família, o homem que ela amava e que achava que a amava tão apaixonadamente quanto.

Esse é um livro intenso, realista e incrível, porém, cheio de gatilhos por toda a parte. Então, se você não se sente emocional e psicologicamente preparado para enfrentar uma história assim, por favor, espere até que se sinta bem o suficiente para fazer essa leitura.

Minha única certeza depois de passar por essa experiência, é que quando você pegar essa leitura, sairá dela sabendo que valeu muito a pena.


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