sábado, 16 de março de 2019

O Reino de Zália






Este foi meu primeiro contato com a escrita da autora Luly Trigo e que prazer tive em atravessar o calhamaço de mais de 400 páginas! Unindo a ideia de um reino com características distópicas e política palaciana, mas com um toque político propositadamente similar ao do nosso Brasil, eu fui ganha de forma bem facinha pela sinopse. Só não esperava o quão MAIS “O Reino de Zália” acabaria se tornando.

Zália é uma princesa atípica: não foi criada no palácio, no arquipélago tropical de Galdino, mas viveu quase toda a sua vida como uma garota normal. Apaixonada por fotografia, era aluna de um internato com amigos plebeus e zero possibilidades de ascender ao trono. Ela passou por algo similar ao que vimos com Mia Thermopolis em “O Diário da Princesa” e com America Singer em “A Seleção”: do nada, por situações das quais não tem controle, precisa aprender a ser uma governante. No caso de Zália, teve que assumir direto o posto de regente no lugar do irmão Victor, que tinha acabado de ser assassinado, sem nem ao menos ter tempo de processar a perda. Mas, se Meg Cabot se valeu do humor para construir sua Mia e Kiera Cass, do amor jovem entre um príncipe e uma moça de casta baixa, Luly Trigo teceu sua Zália como uma nobre combativa, questionadora e que não abaixava a cabeça facilmente.

Se na série “A Seleção” os aspectos políticos ficaram em segundo plano, - algo que sempre me incomodou, em especial nos livros posteriores à trilogia inicial -, aqui são tão protagonistas quanto a personagem que dá nome ao título. Tem de tudo um pouco: feminismo, empoderamento, resistência a um sistema desumanizador e a importância da representatividade e de ser ouvido, pois o ato de fazer política é algo muito além do que votar quando te obrigam, ou “mamar nas tetas” do governo na forma de corrupção. E olha que no caso dela, era esperado que fosse uma regente de fachada, deixando todas as decisões nas mãos do rei. Seu papel era ser um belo enfeite em eventos oficiais. Mas, nossa princesa está longe de ser uma conformista e mesmo muito jovem, desponta como um “problema” para a velha guarda política de Galdino.

Zália era incentivada a procurar e a escutar o povo, até mesmo as acusações da Resistência, um grupo considerado terrorista e que exige mudanças no status quo na base de protestos e greves. O que ouve deles só a deixa mais resoluta a construir um Galdino melhor. Porém, como trabalhar lado a lado com aqueles que provavelmente, assassinaram seu irmão?

Você chegou até aqui e deve estar se questionando: “e o romance”??? Cadê meu angst, meu coração dividido e toda aquela sofrência de música sertaneja???" Tenham calma, senhoras e senhores que nós temos dois gatinhos para admirar e que deixam nossa menina bem confusa: um amor do passado que retorna e a possibilidade de dar chance a alguém novo. Quem ela irá escolher? #ajudaluciano

O foco narrativo não é no romance, mesmo que ele tenha certo destaque. Luly Trigo não fez a menor questão de esconder que Galdino era uma metáfora para o nosso desigual Brasil. Afinal, todos os principais problemas daqui, também são os de lá. É um recurso sutil e inteligente, pois traz uma necessária reflexão sobre nosso papel nesse país como potenciais agentes de mudança, mas numa roupagem que não parece uma “aula” na forma de livro.

Mais do que recomendado, considero esta uma leitura essencial a todos os públicos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário